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Presente de Natal

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Queria-te de verde, arborecida Olhos cintilantes ao piscares Nossa casa além doutros lares Assim amada como querida Queria-te dançante no vão do quintal Ao som d'O Anel dos Nibelungos Eu, soldadinho de chumbo Tu, meu presente de Natal Queria-te preta, anoitecida Coberta de flores e capulanas Tão vistosa como é de africanas Amada mais do que querida Queria-te em pele de animal Ao som de tambores gritantes Eu, o rei das terras distantes Tu, minha musa tropical

É cedo ainda

É cedo ainda, descansa Eu te acordo quando forem oito O sol que já brilha é uma farsa O galo que já canta é afoito Mantenha sua cabeça no meu peito Ressone enquanto guardo seu sono Fique mais perto, que o colchão é estreito Cada centímetro longe é abandono É cedo ainda, durma Eu aviso quando for o momento O clarão lá fora é a bruma As vozes na rua são do vento

Crássula

Num canto sombrio jaze um vaso de crássula Que lhe falta flores e o verde vibrante da rúcula Feio o vaso, feio o canto. Há uma enorme mácula Há umas paredes inclinadas à esdrúxula Igual a estas rimas: Proparoxítonas ácidas É sinistro aquele canto, tem a face mórbida Se vidas houve alí, hoje não são mais ávidas É próprio dessa esquina ser assim túrbida Da planta, todas as folhas são cadáveres Do vaso, à pobre terra, suas paredes são cárceres É um cemitério aquele canto impávido Se já teve luz, se já seu ar um dia foi cândido Talvez o sol queimou até fazê-lo assim árido Fez das areias do vaso, para sempre, solos impúberes

Não me Doeu

 Meus assassinos mereciam uma vítima melhor Que lutasse pela vida com uma certa dor Não quem já não se importasse como eu Que morri de dor, mas não me doeu

Mais que

 Tua mãe, que te deu a vida, não te ama tanto quanto eu Pois, eu daria, pela tua, a vida que a minha mãe me deu Far-te-ia eterna mesmo que fosse para te amarem outros tais Tornar-te eu iria mais coisa minha do poderiam tornar-te os teus pais www.idilioliteratura.blogspot.com

Memória

 Como deixar de sonhar em te ter Se não acordei do beijo que me deste Ainda queima o fogo que em mim ardeste Se és a memória, como poderia te esquecer

Beduino

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 No lugar onde habito Há um antigo hábito De se cobrir de hábito Quando chega o amanhecer Ao atravessar o deserto Tem que, de certo Para que a viagem dê certo O beduíno se proteger Sob o sol em brasa No chão que embrasa Um pano que lembra asa Vai se arrastando pela areia Esse lugar que outros evitam Se limitam aonde, em fim, estão Com meus olhos eu nunca vi tão Bonita paisagem que me rodeia